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Devotos 

Devotos do social

A banda Devotos é mesmo inquieta! É a própria imagem do bairro onde vivem Cannibal, Neilton e Celo. Banda inquieta na linguagem, na estética e nos seus fundamentos mais elementares: do conteúdo à sonoridade que produzem.

No som, a banda alcança uma invejável maturidade de quase duas décadas na estrada, aprendendo com as adversidades, tirando “leite de pedra” e seguindo adiante como é o ritual de cada morador do Alto José do Pinho no seu dia-a-dia. É isso mesmo: seguir adiante, manter-se inquieto e, ao mesmo tempo, devoto de uma causa como é a missão da arte e do artista que dela comunga.

Mas, enquanto amadurece musicalmente e finca raízes entre os admiradores do punk-rock hardcore, a banda Devotos teve que se desdobrar quase que sozinha para chegar ao seu terceiro trabalho. Desde o segundo semestre de 2002 que a Devotos vem trampando na produção do novo cd. É um trabalho completamente independente, feito em casa, utilizando-se de muita criatividade tecnológica (isto inclui a participação, por telefone, de João Gordo em uma das faixas) e de muita cooperação entre Cannibal, Neilton e Celo, e a mãozinha de músicos das outras bandas do Alto José do Pinho. Eu acompanhei parte dessa saga, desde as gravações realizadas na casa de Cannibal (“estúdio I”), aos registros das guitarras de Neilton em sua casa (“estúdio II”) e a masterização final feita no Rio de Janeiro. Aliás, no Rio de Janeiro a Devotos contou com a camaradagem de Dado Vila-Lobos (ex-Legião Urbana) fundamental para viabilizar a masterização do cd.

O que pude registrar desse período? Uma banda que se desdobrou entre a produção do cd e a realização de shows para tocar o projeto independente. Fica, é óbvio, uma indignação a mais, frente ao descaso que tem vários lados quando se trata de um trabalho autônomo. Tudo parece conspirar contra! Mas, as dificuldades não são novidades na carreira da Devotos. Elas tornam ainda mais vivos os contrastes que atingem aqueles que trilham os caminhos alternativos nas artes. Só seus fãs lhes continuam fiéis, basta ir aos shows. Isto é combustível puro para a banda não desanimar.

Nos seus conteúdos a banda Devotos é mais um alto-falante contra as desigualdades sociais, contra o preconceito e contra a discriminação que teimam em tornar invisíveis jovens, mulheres, idosos, crianças, negros e negras, artistas populares e toda sorte de gente do lado de cá. A Devotos alimenta, ainda, a fé numa vida decente para todos, indistintamente!

E como a Devotos é mesmo uma banda inquieta, se lança coesa com a cumplicidade de outras bandas e colaboradores num projeto social. Trata-se da ONG Alto-Falante, criada em 2002, pelos músicos das várias bandas do Alto José do Pinho, com a missão de dar continuidade aos trabalhos de educação para uma nova cidadania no bairro. Essa iniciativa, materializa um sonho desses músicos que nunca deixaram de lado a preocupação com as mazelas sociais e, que por essa razão, a Devotos também nunca deixou de fazer a sua parte.

A ONG Alto-Falante já deu frutos: está em funcionamento a Rádio Comunitária Alto-Falante! Além disso, a ONG Alto-Falante, a partir da brodagem de seus associados, tem realizado ações educativas e culturais no Alto José do Pinho, assim como tem reunido solidariedade e muita criatividade na produção e lançamento de projetos musicais de bandas da própria região. O novo cd dos Devotos estampa, com muito orgulho, a marca da ONG Alto-Falante.

A banda , como parte substantiva dessas iniciativas, já faz seus diálogos com uma espécie de terceira geração de fãs, amigos, colaboradores e outras pessoas que estão no mesmo barco contra as desigualdades e a favor da liberdade, da alegria e da paz. Esse diálogo quer incluir vocês. Esse diálogo é um convite para que vocês sejam, como nós, Devotos do social.

* Por Evanildo Barbosa da Silva, coordenador da ONG FASE, em Pernambuco, colaborador da ONG Alto-Falante.